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quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Santa Túnica de Nossa Senhora em Chartres - 2

Continuação do post anterior


Reliquia exposta na catedral de Chartres


“Esta relíquia tão preciosa era guardada numa urna feita em cedro, que o ourives Teudon recobriu com placas de ouro no fim do século X.

“Todas as gerações rivalizaram para orná-la e penduravam pelos quatro lados toda espécie de maravilhas. Viam-se camafeus antigos, o mais belo dos quais fora doado pelo rei Carlos V e representava um Júpiter que acreditava-se ser São João por causa de sua águia.

“Sobre um fundo semeado de rubis, topázios e ametistas destacavam-se duas águias em ouro entalhadas outrora por Santo Elói. Uma enorme zafira era o presente do rei Roberto e um grifo de ouro esmaltado tinha sido trazido do Oriente no tempo das Cruzadas.

“Filipe o Belo deixou um rubi e o duque de Berry seus emblemas com suas armas.

Rosácea de vitrais na catedral
“O rei Luis XI levava sempre uma pequena imagem de Nossa Senhora de Chartres no seu chapéu. Um cinto de ouro envolvendo a urna era presente de Ana de Bretanha, duquesa e rainha.

“Inumeráveis rosas, coroas, flores e castelos de ouro, conjuntos de pedrarias formando o nome da Virgem, pérolas espalhadas por toda parte eram muitos outros dons e ex-votos anônimos.

“Como já não havia lugar em volta da urna, foi necessário pôr a quantidade imensa de oferendas em três tesouros da catedral. Alguns dons eram magníficos, outros de uma ingenuidade comovedora: havia um cinto de porco espinho bordado com sedas e enviado pelos índios Huron da América do Norte e onze mil grãos de porcelana representando o número de habitantes Abénaquis da Nova França (índios do Canadá). As oferendas só cessaram na véspera da Revolução Francesa.

“A urna de tal maneira rica e rodeada de tanta veneração, entretanto não era exposta jamais e a Santa Túnica ficou invisível durante séculos.

“Como não se tinha idéia alguma de como pudesse ser a túnica de Nossa Senhora, imaginava-se ter a forma de uma camisa. Era chamada com freqüência de “a Santa Camisa”.

“No século XV, os romeiros que iam a Chartres colocavam no seu chapéu um símbolo de chumbo onde estava representada uma camisa.

Relicário onde se guarda a relíquia quando não está exposta
“Fazia-se tocar na urna minúsculas camisas de metal que os homens de guerra levavam consigo como proteção. Num duelo, o gentil-homem que tinha no peito uma “camisola” de Chartres, devia prevenir lealmente a seu adversário.

“Camisas de pano tocadas na urna ajudavam as mulheres a suportar as dores do parto e eram enviadas às rainhas da França.

“Quando a Revolução Francesa violou o mistério e abriu a urna, percebeu-se que a Santa Túnica não parecia em nada com uma camisa.

“Trata-se de uma dessas peças de pano que usam as mulheres do Oriente e que vinha acompanhada de um véu decorado com dois leões que se olham frente a frente.

“O sábio abade Barthélemy, quando consultado, constatou que esses tecidos eram de origem síria e podiam remontar ao século I de nossa era.

“Hoje só ficam alguns fragmentos da Santa Túnica e do véu salvos do Terror (ditadura sanguinária da república francesa 1792-1794) e resguardados num relicário de feitio posterior.”

Fonte: Émile Mâle, “Notre Dame de Chartres”, Flammarion, Paris, 1994, 190 páginas, p. 17 e ss.



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